A pandemia do novo coronavirus, noticiada neste ano corrente, mudou de forma inimaginável as relações pessoais e profissionais. A necessidade pujante do isolamento social trouxe o propósito da continuidade da comunicação.

Da incredulidade que uma situação epidemiológica poderia tomar tamanha proporção em um curto espaço de tempo em algumas localidades e em outras não trouxe a fragilidade dos processos habituais e exigiram uma rápida tomada de decisão para não haver o desvio dos compromissos assumidos.

Um conjunto de crenças, valores e técnicas sobre a modelagem da informação da construção, em tradução livre do acrônimo Building Information Modeling – BIM, foi posto a prova. Pensando em termos da informação, contida do acrônimo, o “I”, lidar com os metadados (dados sobre outros dados) é o maior desafio a vencer e quebrar a resistência ao novo que não é tão novo assim.

Assim, como entusiasta, docente, profissional e disseminador do BIM vou simplificar e descrever os metadados como informações estruturadas que descrevem, explicam, localizam ou tornam mais fácil recuperar, usar ou gerenciar um recurso de informações.

Não faz muito tempo que a primeira informação que se dispunha era a gráfica, esta elaborada pelos desenhistas em suas diversas fases projetuais e interdisciplinares.

Fonte: Google Imagens

Com a era da informática e a tecnologia cada vez mais acessível, o microcomputador tornou-se o maior aliado nos escritórios de cálculo para a automação entre as etapas de projeto.

Fonte: Revista Concreto e Construções, edição 84, ano 2016.

E dessa forma, no final do ciclo interdisciplinar, além da informação gráfica o processo traz consigo as informações das análises, cálculos e dimensionamentos, incluindo as tomadas de decisão do estruturalista.

Em apertada síntese, o processo estrutural tradicional é em etapas sequenciais que promovem valor agregado significativo ao projeto até o seu término.

Fonte: autor

Porém este processo é estanque e a informação está restrita ao software e a base de dados do escritório. Atualmente o armazenamento dessas informações mais sensíveis (memorial) ficam em um servidor de dados local ou comumente num ambiente virtual conhecido como armazenamento na nuvem.

Retornemos ao desafio: como tratar as informações sensíveis, controlar e/ou medir o incremento do valor agregado no desenvolvimento projetual e ainda manter a comunicação entre as demais disciplinas como arquitetura, instalações, geotecnia e refrigeração, por exemplo, sem uma reunião presencial ou várias outras necessárias até a sua validação?

Simples. Com o BIM! Entretanto esta metodologia, esta filosofia, este item abstrato, não é um artigo de prateleira que apenas se dirige a uma empresa de soluções tecnológicas e a adquire e ainda se capacita na ferramenta. Consiste em lidar com a organização interna existente e seus conflitos, mobilizar recursos físicos e financeiros, reestruturar as relações entre os participantes externos à organização, dentre outros. Muito se diz que o trinômio Processos x Pessoas x Tecnologia são os pilares do BIM, mas como isso então é implementado?

Cabe observar que, a partir deste ponto, não se promove uma “receita de bolo”, mas apenas faz referência a uma parte da materialização de alguns artefatos vinculados aos pilares já citados e que devem ser adaptados a realidade de cada organização.

Tendo as operações da organização que apresentam certa unidade ou que se reproduzem com certa regularidade (Processo mapeado), uma política instituída de troca de trabalho colaborativo, sejam digitais ou não (Pessoas) e uma tecnologia que permita o reaproveitamento de informações entre sistemas e/ou que incremente os metadados é instituído outro cenário com um novo fluxograma. Comparando com o apresentado anteriormente existe uma evolução do modelo, porém numa atividade em BIM esta é vinculada por um repositório conforme cada validação.

Fonte: autor

Num ambiente colaborativo essa evolução pode ser de forma síncrona (ao mesmo tempo) ou assíncrona (tempos distintos) e o repositório será o responsável pelas primeiras percepções gráficas (compatibilização, coordenação 3D, clearence, clash detection, organização documental, inferências dos metadados e demais funcionalidades particures de cada tecnologia).

Para a evolução de um projeto estrutural tradicional ou em BIM se precede a disponibilização das informações relativas as especificidades da edificação além de um modelo arquitetônico neste caso atribuído com “MATRIZ”. Como boa prática, utilizar o próprio modelador onde foi produzido a arquitetura como consolidador das informações projetuais finais (modelo físico) te traz os benefícios da interoperabilidade e/ou da intercambiabilidade.

Enquanto a Interoperabilidade é a capacidade de um sistema de se comunicar de forma transparente (ou o mais próximo disso) com outro sistema (semelhante ou não) com padrões abertos (atualmente o IFC), a Intercambiabilidade é a operação que consiste na troca de informações específicas através de softwares distintos, sem necessidade de configuração ou manipulação de arquivos pelo usuário final, impedindo de fato a perda de dados significativos ou qualquer esforço complexo ou especial (atualmente é uso de plugin).

Fonte: autor

Neste ponto é que se dá o primeiro imbrólio, pois cada modelo tem suas especificidades e tanto a interoperabilidade quanto a intercambiabilidade carece de uma rotina de testes para apontar os riscos e dessa forma saber como mitiga-los, absorve-los ou transferi-los. Assim, nota-se que não existe mágica, mas sim um apontamento de quão falho ou eficiente pode ser a forma de trabalhar e interagir da organização.

Os benefícios além do reaproveitamento dos modelos está em por exemplo trazer os metadados do software especialista como índices para os materiais (kg/m³, kg/m², m²/m², m³/m²), taxas de armadura e estas serem subsídios de um BI (Bussiness Inteligence) para relatórios de estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental (EVTEA), de um banco de dados com composições de serviços e seus encargos e tantas outras aplicações que dependem apenas de dados e não da parte gráfica.

Observem que não é apenas devido a pandemia do coronavírus que esta mudança esta acontecendo, tem um outro viés: o educacional, o governamental (Decreto nº 10.306, de 2 de abril de 2020). Do dito popular “Os costumes de casa vão à praça” analogamente é na formação dos futuros profissionais de Arquitetura, Engenharia, Construção e Operação (AECO) que a realidade será esta mais tardar em poucos anos.

Do giz para caneta de quadro, da prancheta para o computador, das situações hipotéticas para o estudo de caso e dos projetos isolados para os multidisciplinares, novamente é só uma questão temporal.

Na disciplina de Pontes a necessidade de se trabalhar em BIM já é uma realidade para projetos de Obras de Arte Especiais (OAE). Por meio da percepção das fases de projeto estrutural é possível se fazer valer da metodologia de forma eficiente e adaptável à realidade do mercado. A partir de um Plano de Execução BIM (PEB) é explicitado os níveis de desenvolvimento de projetos de OAE, em que softwares serão utilizados e a forma que serão utilizados.

Também é explicitado em que fase do desenvolvimento as normas regulamentadoras e correlatas devem ser incluídas ao modelo e como se dá o memorial de cálculo e as peças gráficas como finalização do processo BIM para Pontes.

Segue o registro de algumas das metodologias em aplicação: (a) problematização, (b) sala de aula invertida e gameficação no intuído da retenção de conhecimento por parte do discente e também de disseminar procedimentos que levam ao BIM (c) Project Based Learning – PBL.

a. Cargas móveis e envoltória. b. Jogo dos sete erros e de associação.

c. Repetição de OAE (Aluna).

Na disciplina de Concreto Armado II a experiência vivida pelos discentes perpassam em como analisar e dimensionar a estrutura pelas normas brasileiras regulamentadoras (NBR e correlatas) e obter uma memória de cálculo totalmente integrada ao modelo independente da tecnologia e finalmente como compartilhar várias informações como fôrmas e armaduras desde que se entenda a metodologia e principalmente o “I” do acrônimo BIM.

a. Repetição de um Edifício em Concreto Armado.

Portanto evoluir com o tempo é uma questão da maturidade interna e dos participantes externos (clientes e/ou arquitetos e engenheiros) e com o tempo da informação, haja vista que ainda não se vislumbram todas as capacidades que o BIM pode promover.

Vamos entrar para vencer este desafio? SIM, vamos!

Artigo: Li Chong Lee Bacelar de Castro, Diretor Acadêmico do Master Internacional em Estruturas de Edificações.Engenheiro Civil, Doutor em Estruturas e Construção Civil. Analista de Infraestrutura da Controladoria Geral da União – CGU.

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