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Estratégias para o saneamento de comunidades isoladas e cidades sustentáveis

As soluções descentralizadas de esgotamento sanitário são fundamentais para a construção de estratégias de saneamento em comunidades isoladas e cidades sustentáveis, sendo, portanto fundamentais para que pensemos um futuro rumo à universalização do saneamento básico e rumo a soluções ecológicas de manejo sustentável de recursos hídricos. Este artigo apresenta a importância destas soluções, bem como dos processos participativos e pedagógicos que as permeiam, e deixa um convite a todos(as) colegas para que possamos desenvolver modelos geoespaciais BIM. Se quiser informar-se mais sobre este e outros projetos, acompanhe a Lean Construction Summit 2022, que será nos dias 15 e 16 de fevereiro, às 16h (Horário de Brasília). Nela apresentaremos este estudo de caso e discutiremos junto a outros especialistas a metodologia Lean e a Sustentabilidade. O evento é online e gratuito, inscreva-se através deste link!

 

Soluções descentralizadas de Esgotamento Sanitário – Estratégias para o saneamento de comunidades isoladas e cidades sustentáveis 

Neste artigo, toma-se como base a experiência de seu autor para chamar a atenção dos leitores desse blog sobre um tema que, em geral, não costuma fazer parte do cotidiano de nossos estudos BIM, mas que é primordial para o setor de infraestrutura e estratégias de saneamento básico: a importância das soluções descentralizadas de esgotamento sanitário, tanto para viabilizar soluções para comunidades isoladas, como também para que pensemos projetos de infraestruturas mais sustentáveis em nossas cidades. O saneamento ecológico é constituído por soluções descentralizadas, cujo design é baseado em princípios e valores de cuidado com o meio-ambiente, sustentabilidade e reciclagem de nutrientes, água e matéria orgânica. A partir dessa visão, compreende-se o esgoto como uma importante fonte de recursos e propõem-se a promoção de práticas agrícolas sustentáveis a partir da reciclagem desses recursos (HAQ e CAMBRIDGE, 2012; LANGERGRABER e MUELLEGGER, 2005). Desta maneira, as soluções descentralizadas de saneamento, associadas aos princípios do saneamento ecológico, podem contribuir para que possamos atender uma boa parte dos cerca de 100 milhões de brasileiros que não tem serviço de coleta de esgoto, assim como contribuir para reverter o cenário de escassez hídrica que enfrentamos atualmente. No que tange os sistemas de esgotamento sanitário, em geral, o que se vê são estratégias de saneamento baseadas na construção de grandes redes de coleta de esgoto, com interceptores, emissários e estações elevatórias, os quais têm como objetivo juntar as águas residuárias oriundas dos diferentes pontos de contribuição e transportá-las até as grandes ETEs, onde após tratado o efluente é lançado diretamente em algum corpo hídrico. Sabe-se que as soluções centralizadas são de grande relevância para centros urbanos, como cidades com mais de 100 mil habitantes, sendo fundamentais para a promoção do saneamento básico em nosso país, e para que possamos alcançar a meta de universalização até 2033 estipulada pelo novo Marco Legal do Saneamento. 

 Exemplos de implantação de sistema descentralizado – Atividade pedagógica pré-obra Enquanto isso, 94,2% dos municípios de nosso país possuem menos de 100 mil habitantes (IBGE, 2019), os quais concentram grande parte do déficit de esgotamento sanitário e que possuem menor densidade populacional, inferior a 40 habitantes/hectare, como mostra o estudo de Kipnis e Castro (2020). Este estudo, fez ainda um levantamento comparativo de custos entre sistemas centralizados e descentralizados, o qual apontou que o sistema descentralizado possui menor custo de implantação por habitante para densidades demográficas inferiores a 40 habitantes/hectare. Frente ao exposto, e tendo como base minha experiência profissional que nos últimos 8 anos focou grande parte de seus esforços em projetos ou estratégias de saneamento para comunidades isoladas, posso afirmar que não há uma receita pronta, não há uma solução ideal para qualquer situação, mas, de fato, as estratégias baseadas em sistemas descentralizados são uma excelente solução para tais contextos. Nos sistemas descentralizados, utilizamos uma vasta gama de soluções possíveis, dentre elas o Tanque de Evapotranspiração, o Vermifiltro, a Fossa Biodigestora, os Wetlands Construídos, o Biodigestor, Biossistema, Fossa-Filtro-Sumidouro, dentro outras. Apesar da importância destas tecnologias, a chave para o sucesso de sistemas descentralizados não está em uma tecnologia específica, mas sim na integração da esfera tecnológica, de gestão dos serviços, e de participação social e educação. 

 

Atividade pedagógica durante a obra Em geral, a própria comunidade deverá assumir ao menos parte da operação e manutenção de seus sistemas de esgotamento, sendo portanto fundamental que os processos de diagnóstico e escolha das soluções partam de processos participativos e pedagógicos, que tem como objetivo instruir membros da comunidade acerca do funcionamento das estratégias de saneamento propostas, de modo a capacitá-los, assim como possivelmente funcionários da municipalidade, a construir, operar e manter tais tecnologias. A forma como se dará estes processos participativos, bem como o conteúdo e as metodologias pedagógicas a serem incorporadas dependerá de cada situação, uma vez que há uma grande diversidade cultural, social e econômica. As tecnologias de tratamento a serem adotadas também dependerão de uma análise sócio-técnica de cada situação, havendo 15 tecnologias diferentes catalogadas pelo manual elaborado pela Unicamp (2018). 

Estrategias saneamento  

Construção de sistema de tratamento de água com participação da comunidade em aldeia Guarani Ao longo de minha trajetória projetei e executei 35 sistemas descentralizados de tratamento e estratégias de esgotamento sanitário em comunidades isoladas, os quais exigiram diferentes soluções técnicas e processos participativos-pedagógicos. Foram mais de 1000 pessoas beneficiadas por estes sistemas, entre elas agricultores que receberam sistemas individuais de tratamento, e aldeias indígenas e comunidades peri-urbanas que receberam sistemas coletivos e semi-coletivos para tratar o esgoto de até 200 pessoas. Segundo estimativas, já são mais de 50 milhões de litros de esgoto tratados e devolvidos para a natureza em forma de biofertilizante. A seguir compartilho algumas imagens destas diferentes construções e atividades pedagógicas sendo construídas junto com a comunidade. 

Estrategias saneamento  

Construção de um sistema de esgotamento sanitário com participação da comunidade em aldeia Guarani Além de possibilitarem soluções para comunidades isoladas, as estratégias de saneamento ecológico e soluções descentralizadas podem contribuir para que tenhamos cidades mais resilientes e sustentáveis. Tanto no Brasil como no mundo temos nos deparado com cenários de escassez hídrica, sendo fundamental inovar no setor do saneamento e reconstruir nossa relação com a água. Historicamente, construiu-se uma cultura de afastarmos os esgotos, muitas vezes em seu estado bruto, utilizando os corpos hídricos e ter que recorrer a buscar água limpa cada vez de mais longe. Este fluxo hídrico e de nutrientes convencional é representado na figura a seguir: Estrategias saneamento  

Fluxus – Adaptado de Werner et al. (2009) Como pode-se observar nesta figura, não há um manejo integrado dos recursos hídricos, tem-se uma baixa cobertura do tratamento de esgotos e, mesmo os efluentes tratados por processos convencionais possuem micropoluentes como hormônios e fármacos que acumulam nos corpos hídricos. Há ainda um baixo aproveitamento de biossólidos e dos nutrientes do esgoto na agricultura. Na imagem a seguir, apresenta-se a proposta de manejo hídrico baseada nos princípios do saneamento ecológico, o qual considera o esgoto uma importante fonte de recursos. Estrategias saneamento  

Fluxo hídrico e de nutrientes do saneamento ecológico - Fonte: Werner et al (2009) Neste caso, observa-se que há um manejo hídrico integrado, havendo diferentes fontes d’água como os mananciais de superfícies, os mananciais subterrâneos que são abastecidos por meio de zonas de recarga planejadas, e há ainda o uso da água de chuva para fins não potáveis e promoção de soluções de drenagem sustentável para infiltrar água de chuva no lençol freático. Quanto aos efluentes gerados vemos que há uma segregação de efluentes na fonte: as águas cinzas (efluentes de pias, chuveiros e lavanderias) apresentam menor risco de contaminação por patógenos e podem ser tratadas mais localmente e utilizadas como água de reuso, enquanto que as fezes podem se tratadas em plantas de biodigestão, gerando biogás e biofertilizante, e a urina também pode ser utilizada como um fertilizante na agricultura. Certamente, tanto para que as soluções descentralizadas sejam adotadas para promover cidades mais resilientes e sustentáveis, como também para atender comunidade isoladas, o BIM e as tecnologias de sensoriamento de Internet da Coisas (IOT) têm muito a contribuir para que possamos aumentar a eficiência operacional e baixar o custo de manutenção destes sistemas, assim como para aprimorar o planejamento e orçamentação das ações de saneamento baseadas em soluções descentralizadas. Assim, gostaria de deixar aqui meu convite a todos(as) colegas para que possamos juntos desenvolver modelos geoespaciais BIM que nos auxiliem na concepção de sistemas de saneamento mais sustentáveis e ecológicos, sejam em comunidades isoladas ou em grandes centros urbanos, e que esses possam ser utilizados ao longo de todo o ciclo de vida destes ativos, aumentando sua eficiência operacional e contribuindo para maior transparência das informações, podendo apoiar os processos participativos junto a sociedade, e contribuir para a universalização do saneamento e para a consolidação do controle social.   

 

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Autor

Vitor Tonzar Chaves

MSc. Especialista em Saneamento | BIM Manager na Vitor Chaves Engenharia e Treinamentos

Engenheiro e Mestre em Engenharia Hidráulica e Ambiental, BIM Manager - Master Internacional em BIM Management para Infraestruturas, Engenharia Civil e GIS pela ZIGURAT. Atua como BIM Manager na Vitor Chaves Engenharia e Treinamento, além de ser professor na ZIGURAT.