Esta entrevista foi originalmente publicada em maio de 2022, no número 5 da Revista Mosaic da Zigurat. Clique aqui para baixar gratuitamente o número completo.

 

Marilena Christodoulou é Professora do Curso de Aperfeiçoamento em Desenho Paramétrico com Programação Visual em BIM da Zigurat em espanhol. Ela é arquiteta especializada em projeto paramétrico e investigação e possui uma forte vocação para o ensino. Os seus estudos de arquitetura tiveram início na Escola de Arquitetura da Universidade de Thessaloniki, na Grécia.

Pode nos contar um pouco mais sobre o seu percurso profissional?  

Durante os primeiros dois anos de trabalho em Chipre, tive o primeiro contato com as últimas estratégias e tendências de desenho, em especial o desenho computacional. Foi aí que percebi que existia um novo processo de programação visual que olhava diretamente para o futuro e que podia mudar o panorama da arquitetura.

Estes novos métodos me intrigaram e me motivaram a me inscrever no Programa de Master em Desenho Avançado e Arquitetura Digital, em Elisava. A minha relação com as estratégias de desenho contemporâneo, a lógica dos sistemas emergentes, a biomimética, a eficiência e a adaptabilidade, apoiada pelos novos paradigmas das ferramentas e dos meios digitais, me ajudou a mudar a minha maneira de pensar sobre o processo de desenho e sobre como conceituar um projeto. Também me fez descobrir as novas possibilidades que a tecnologia oferece aos designers. Desde que acabei o Master, tenho trabalhado no mesmo curso como instrutora de software (Rhino & Grasshopper) e ajudado os alunos nos seus projetos. Também tenho trabalhado no Master Parametric Design and Architecture (CODA), ETSAV, dando aulas de teoria e história do desenho paramétrico.

No ano passado, finalizei os meus estudos de Doutorado na escola de arquitetura da UPC, onde desenvolvi o meu próprio projeto de pesquisa sobre “Developing a Parametric System for Pointe Shoe Customization”. Também participei em vários programas de pesquisa relacionados com a arquitetura paisagística. A variedade de disciplinas que estão envolvidas na minha tese de doutorado, juntamente com a complexidade do próprio projeto, me ajudaram a ampliar os meus horizontes e os meus conhecimentos. Fazer o doutorado foi um caminho longo, solitário e um grande desafio, pois me fez ampliar e combinar os meus conhecimentos em anatomia, biomecânica, materiais, fabricação digital, ballet, desenho de calçado, desenho paramétrico, entre outros.

Atualmente, além da minha colaboração com a Zigurat e a UPC, onde dou aulas de Geometria Descritiva na ETSAB, também colaboro com a AELAND (arquitetura de paisagem). A minha experiência laboral me involveu em diversos projetos e de diferentes naturezas, ampliando assim o meu campo de conhecimento e experiência.

Você faz parte do Faculty Board, do Curso de Aperfeiçoamento em Desenho Paramétrico com Programação Visual em BIM da Zigurat. O que significa para você o ensino docência, tanto a nível profissional como a nível pessoal?

Para mim, o ensino representa muito mais do que uma profissão. É uma decisão consciente de querer ajudar outra pessoa a melhorar, compartilhando o seu conhecimento, e de querer contribuir para o progresso do mundo. Por isso, dedicar-se ao ensino requer um seguimento contínuo das tendências e uma atualização de conhecimentos para poder avaliar o que vale ou não a pena compartilhar e como fazê-lo.

É verdade que a minha tese de Doutorado me ajudou a superar os meus limites, explorarando a minha criatividade, as minhas habilidades de organização e determinação. E principalmente, a confirmar que o meu propósito na vida é precisamente este: continuar a aprender e a compartilhar os meus conhecimentos.

A minha experiência como professora em várias disciplinas relacionadas com aplicação da tecnologia no processo do desenho mostrou-me que, enquanto docente, há que continuar a aprender para poder ajudar os alunos a descobrir e a superar os seus limites. Acredito que, como desenhadores, o mais importante é conseguir ter um campo de conhecimento muito amplo para poder desenvolver o pensamento crítico para a solução de problemas.

O segredo não está em saber tudo, mas sim em saber onde procurar as respostasComo disse Plutarco: “A mente é um fogo a ser aceso, não um vaso a preencher” e, como professores, temos a responsabilidade de acender esse fogo a que fará que os nossos alunos sejam os desenhadores e pesquisadores do futuro.

Quais são as principais mudanças no trabalho do setor que você viu durante o seu percurso profissional?

Recordo que na licenciatura em arquitetura, na Grécia, durante os três primeiros anos, tudo era desenhado à mão. Estou quase certa de que muitos alunos de arquitetura hoje em dia nem sequer sabem o que é um Rotring. Fazer desenhos à mão requeria muita dedicação, muita paciência e, principalmente, muito cuidado para não nos enganarmos.

Pouco a pouco, da mão passamos a desenhar com o AutoCAD. Me lembro que, em 2008, comecei a dar os primeiros passos neste software criando espaços 3D utilizando o software Rhino. A integração das tecnologias digitais no processo de desenho, além de nos ajudar a fazer as coisas de uma maneira mais fácil e rápida automatizando muitas tarefas, nos ajudou também a explorar formas novas. No desenho paramétrico, por exemplo, o designer define os parâmetros dentro dos quais pode ajustar e controlar a geometria da sua obra de tal maneira que lhe permita ter inúmeras variações e soluções. De acordo com Patrik Schumacher, o estilo paramétrico surgiu como respostas às necessidades da sociedade pós-fordista. A necessidade da singularidade que surgiu com sociedade industrial, impulsionada pelas exigências do capitalismo em termos de produção e de consumo em massa, levou a que os arquitetos e desenhadores procurassem um novo estilo, a que atualmente se chama desenho paramétrico com programação visual.

 “A integração das tecnologias digitais no processo de desenho, além de nos ajudar a fazer as coisas de uma maneira mais fácil e rápida automatizando muitas tarefas, nos ajudou também a explorar formas novas.”

O desenho computacional abriu as portas a mais pesquisa e inovação. Ao mesmo tempo, a intenção dos engenheiros em fabricar geometrias complexas impulsionou o desenvolvimento de ferramentas de fabricação digital. As máquinas de fabricação digital estão controladas por um computador que está programado para fabricar produtos diretamente a partir de desenhos digitais. As formas mais comuns de fabricação digital são a máquina CNC, a impressora 3D e o corte por laser. Esta nova forma de fabricar requeria a procura ou até mesmo a composição de novos materiais.

Todas estas mudanças estão acontecendo agora, nos últimos 15-20 anos. Tendo em conta tudo isto, acredito que vivemos um momento muito crítico. O mundo está mudando e, tanto nós como os nossos filhos, são o futuro e quem deve fazer tudo isto avançar.

Nesse sentido, como acredita que este curso pode melhorar a carreira profissional?

Como comentava antes, o mundo está em mudança em muitos sentidos. Por um lado, temos a integração das tecnologias digitais no processo do desenho e da construção e, por outro lado, temos que responder às necessidades que não são as mesmas do passado.

A crise ambiental requer uma mudança de conceitualização de projetos e, obviamente, da fabricação. A indústria da construção já leva muitos anos tentando se adaptar a uma nova realidade. Neste sentido, o curso de Desenho Paramétrico com programação visual  não só dá aos alunos a oportunidade de atualizar os seus conhecimentos e trabalhar com as últimas ferramentas e meios digitais, como também lhes dá a oportunidade de revisar e avaliar os seus métodos de trabalho até agora e renovar as suas ideias como arquitetos e seres humanos.

Do meu ponto de vista, um arquiteto e um designer devem refletir sobre o passado e o presente. No entanto, e mais importante, acredito que devem procurar inspiração no futuro para as necessidades que se aproximam. Para isso, acredito que um arquiteto tem que olhar mais além do seu tempo; tem de identificar as necessidades do usuário mesmo antes de que o próprio usuário seja capaz de as identificar. É esta a maneira de pensar que tentamos transmitir aos nossos alunos.

 

Esta entrevista foi originalmente publicada em maio de 2022, no número 5 da Revista Mosaic da Zigurat. Preencha o formulário abaixo para baixar gratuitamente o número completo.


 

Sem mais artigos